A Broadcom divulgou em 2 de setembro os resultados do terceiro trimestre do seu ano fiscal de 2026: receita total de US$ 29,6 bilhões, alta de 86% em relação ao mesmo período do ano anterior, e receita de semicondutores voltados a inteligência artificial de US$ 16,7 bilhões, um salto de 221%. Na teleconferência com investidores, o CEO Hock Tan afirmou que a Anthropic, dona do assistente Claude, está a caminho de se tornar a maior cliente de chips personalizados da empresa já em 2027 — superando o Google, cliente mais antigo do programa. Por trás dos números está uma disputa que interessa a qualquer desenvolvedor ou empresa que dependa de IA: a corrida das gigantes de tecnologia por capacidade de processamento, que passa cada vez mais por chips sob encomenda, e não só pelas GPUs da Nvidia.
Os números do trimestre
A Broadcom reportou os resultados referentes ao trimestre fiscal encerrado em 2 de agosto de 2026. A receita total somou US$ 29,6 bilhões, 86% acima do mesmo período do ano passado. Dentro desse total, a fatia que mais chamou atenção do mercado financeiro foi a receita de semicondutores para inteligência artificial: US$ 16,7 bilhões, um crescimento de 221% na comparação anual — e essa categoria já responde por 56% de tudo que a Broadcom fatura hoje.
- Receita total do trimestre: US$ 29,6 bilhões (+86% na comparação anual)
- Receita de semicondutores de IA: US$ 16,7 bilhões (+221%), já 56% do total
- Guidance da empresa para o 4º trimestre: ~US$ 34,8 bilhões em receita total e ~US$ 21,7 bilhões em semicondutores de IA
- Meta da empresa para o ano fiscal de 2026 inteiro: US$ 58 bilhões em receita de semicondutores de IA
Da GPU ao chip sob encomenda
A Broadcom não vende processadores de IA prontos no varejo, como a Nvidia faz com suas GPUs. O negócio da empresa nessa área é outro: projetar e ajudar a produzir chips personalizados — os chamados ASICs, ou XPUs, no jargão do setor — sob encomenda de gigantes de tecnologia que preferem hardware feito sob medida para sua própria carga de trabalho em vez de depender só de processadores de uso geral. O exemplo mais conhecido é o TPU (Tensor Processing Unit) do Google, desenvolvido com apoio da Broadcom há mais de uma década e hoje também usado por outras empresas que alugam capacidade da nuvem do Google — caso da Anthropic.
Segundo a transcrição da teleconferência de resultados, durante o trimestre a Broadcom entregou em alto volume a nova geração do TPU, batizada Ironwood (v7), tanto para o Google quanto para a Anthropic, e começou os primeiros embarques de produção da geração seguinte, o TPU v8i, para o Google. As duas versões são otimizadas para inferência — ou seja, para rodar modelos já treinados e responder usuários, não para treinar modelos do zero.
Para uma empresa como o Google ou a Anthropic, encomendar um chip sob medida em vez de comprar GPUs prontas no mercado tem um cálculo próprio: o projeto é mais caro e mais demorado de desenvolver, mas o resultado costuma consumir menos energia por tarefa e reduz a dependência de um único fornecedor — hoje, praticamente só a Nvidia — para sustentar operações que já rodam em escala de bilhões de consultas por dia. É esse cálculo que explica por que companhias com caixa suficiente para bancar anos de desenvolvimento de silício próprio, como as duas citadas, têm investido nesse caminho paralelo às GPUs.
Anthropic mira o posto de maior cliente
Na mesma teleconferência, Hock Tan disse que "a Anthropic está a caminho de se tornar nossa maior cliente de XPU em 2027 e deve manter essa posição em 2028". Segundo o executivo, a expectativa da Broadcom é que a Anthropic implante 5 gigawatts de capacidade em chips TPU v8i ao longo de 2027, com viabilidade para mais 10 gigawatts adicionais depois disso. São números de planejamento anunciados pela própria empresa a investidores — não há, até a publicação deste texto, confirmação independente de quanto disso já foi efetivamente contratado.
O guidance da Broadcom para os próximos trimestres
Além do resultado já fechado, a Broadcom deu uma indicação do que espera entregar à frente. Para o quarto trimestre fiscal de 2026, a empresa projeta receita total de aproximadamente US$ 34,8 bilhões (alta de 93% sobre o mesmo período do ano anterior) e receita de semicondutores de IA de cerca de US$ 21,7 bilhões (alta de 236%). Para o ano fiscal completo, a meta de receita de semicondutores de IA é de US$ 58 bilhões — e a empresa foi além, sinalizando a investidores que enxerga um caminho para US$ 115 bilhões nesse mesmo segmento em 2027 e US$ 230 bilhões em 2028.
Os números do quarto trimestre e dos próximos anos fiscais (2027 e 2028) são projeções (guidance) divulgadas pela própria Broadcom a investidores — não resultados fechados nem garantia de desempenho. Apenas a receita do terceiro trimestre, já encerrado, é resultado confirmado.
OpenAI também quer seu chip próprio: o Jalapeño
A relação da Broadcom com empresas de IA não se limita ao Google e à Anthropic. Em junho, a OpenAI e a Broadcom anunciaram juntas o Jalapeño, primeiro chip personalizado desenvolvido para a OpenAI. Segundo comunicado oficial da OpenAI, o Jalapeño é um ASIC voltado especificamente para inferência — rodar ChatGPT, Codex e outros produtos já treinados —, não para treinar modelos, e foi levado do projeto ao tape-out (a etapa final de design antes da fabricação) em cerca de nove meses, um ciclo considerado muito rápido para um chip desse porte. A implantação está prevista para começar ainda no fim de 2026.
Com a OpenAI, a Broadcom soma pelo menos quatro clientes confirmados de chips de IA sob encomenda: Google, Meta, ByteDance e agora OpenAI — além da relação indireta com a Anthropic via infraestrutura do Google. É esse portfólio que sustenta o salto de receita mostrado no balanço do terceiro trimestre.
O que isso muda para quem trabalha com IA no Brasil
Para desenvolvedores e empresas brasileiras que usam APIs de modelos como Claude ou GPT, esses números não aparecem direto na fatura — mas explicam boa parte do que está por trás dela. A disputa entre AWS, Azure e Google Cloud (comparamos as três [neste guia](/artigo/aws-vs-azure-vs-gcp-2026)) passa cada vez mais por quem consegue garantir capacidade de chips de IA suficiente para atender a demanda, e a Broadcom se tornou uma peça central desse tabuleiro ao ajudar Google, Anthropic, OpenAI e Meta a reduzir a dependência exclusiva das GPUs da Nvidia.
Na prática, mais capacidade de chip disponível tende, com o tempo, a pressionar para baixo o custo de rodar inferência em escala — o que interessa a qualquer time que monta [agentes de IA para automatizar processos](/artigo/claude-agentes-automacao-empresas) ou que acompanha de perto quanto está gastando em tokens. Para quem quer estimar esse custo na prática, vale usar a [calculadora de tokens e custo de IA](/calculadora-tokens) do Bytezine. Essa é, porém, uma leitura de médio prazo: no curto prazo, os bilhões investidos em capacidade nova ainda estão sendo pagos, e é comum que o mercado financeiro cobre das empresas de IA sinais de que esse gasto vai se converter em receita — o guidance ambicioso da Broadcom para 2027 e 2028 é, em parte, uma resposta a essa pressão dos investidores.
Para quem acompanha o dia a dia de ferramentas como Claude e ChatGPT, o resultado da Broadcom é um lembrete de que a camada de infraestrutura por trás da IA generativa — chips, energia, data centers — segue crescendo mais rápido que quase qualquer outra parte da economia de tecnologia hoje. O próximo marco a observar é se a Anthropic confirma, ao longo de 2027, os gigawatts de capacidade prometidos por Tan — algo que deve aparecer nos próximos resultados trimestrais da própria Broadcom.
Perguntas frequentes
Em 2 de setembro de 2026, a Broadcom divulgou os resultados do terceiro trimestre do seu ano fiscal: receita total de US$ 29,6 bilhões (+86% na comparação anual) e receita de semicondutores para inteligência artificial de US$ 16,7 bilhões (+221%). A empresa também disse esperar que a Anthropic se torne sua maior cliente de chips personalizados em 2027.