A Amazon anunciou, em 26 de agosto, que a AWS assinou um acordo definitivo para comprar a DuckLabs, a empresa holandesa por trás do DuckDB — um dos bancos de dados analíticos open source mais usados por desenvolvedores e times de dados nos últimos anos. Segundo o comunicado oficial publicado no blog da AWS, os criadores do projeto, Hannes Mühleisen e Mark Raasveldt, vão continuar à frente da equipe técnica, agora como parte da Amazon, mantendo a base em Amsterdã. A operação ainda depende das condições usuais de fechamento, mas a expectativa da AWS é que a DuckLabs passe a integrar oficialmente a empresa no início de setembro.
Quem é a DuckLabs e o que foi anunciado
O DuckDB nasceu em 2018 dentro do Centrum Wiskunde & Informatica (CWI), instituto de pesquisa em matemática e ciência da computação de Amsterdã, onde Raasveldt e Mühleisen trabalhavam como pesquisadores de sistemas de banco de dados. A primeira versão pública, a v0.1, foi apresentada em 2019 na conferência SIGMOD, também em Amsterdã, segundo o histórico publicado pelo próprio CWI e pelo projeto. Para sustentar o desenvolvimento comercialmente, os dois fundaram a DuckLabs (antes chamada DuckDB Labs), hoje com equipe baseada na Holanda.
Segundo o texto assinado por Mai-Lan Tomsen Bukovec, vice-presidente de Tecnologia da AWS, a colaboração entre as duas empresas já vinha crescendo desde 2024. O valor da transação não foi divulgado — nem pela AWS, nem pela DuckLabs, nem por nenhuma das reportagens que cobriram o anúncio. Assim que o negócio for concluído, toda a equipe da DuckLabs se junta à AWS, permanecendo em Amsterdã.
Por que o DuckDB virou popular entre desenvolvedores
O DuckDB é um banco de dados "in-process": roda embutido dentro da própria aplicação, script ou notebook, sem precisar de um servidor separado para responder consultas — um pouco como o SQLite fez para cargas transacionais, mas otimizado para consultas analíticas pesadas (agregações, joins grandes, varreduras de colunas). Essa característica o tornou um favorito para explorar dados localmente, rodar pipelines de ETL, analisar logs e embutir analytics dentro de aplicações, tudo sem precisar subir infraestrutura extra.
- Consultar arquivos Parquet, CSV e JSON diretamente, sem etapa de importação
- Rodar como biblioteca dentro de notebooks Python, R ou aplicações Node.js
- Processar milhões de linhas na memória do próprio processo, sem cluster
- Servir como camada analítica embutida em ferramentas de terceiros
O crescimento do projeto aparece em pesquisas do setor: segundo o Stack Overflow Developer Survey, o uso do DuckDB entre desenvolvedores saltou de 1,4% em 2024 para 3,3% em 2025, colocando o banco entre os quatro sistemas mais admirados na edição daquele ano. O pacote Python do projeto soma perto de 25 milhões de downloads mensais no PyPI, segundo números do próprio projeto citados por veículos especializados que cobriram a aquisição — para quem já trabalha com [Python em projetos de dados e IA](/artigo/python-ou-typescript-para-ia), é bem provável já ter esbarrado no DuckDB por esse caminho.
O que a AWS ganha com o negócio
No próprio anúncio, a AWS diz que pretende aprofundar a integração entre o DuckDB e seus serviços de dados, otimizar o desempenho de aplicações DuckDB rodando em infraestrutura AWS e expandir o sistema de extensões do banco para permitir extensões assinadas de terceiros — hoje um mecanismo mais restrito. A empresa também afirma que vai ajudar a criar um conselho técnico consultivo (technical advisory board) dentro da fundação que já governa o projeto.
No anúncio, a AWS cita o caso de David Feng, diretor executivo de computação científica no Allen Institute, segundo quem consultas que levavam minutos passaram a voltar em menos de um segundo depois da adoção do DuckDB. É um relato de cliente divulgado pela própria AWS, não um benchmark independente.
A compra também se encaixa numa estratégia mais ampla da AWS de reforçar sua oferta de dados e IA: só nas últimas semanas, a empresa também [lançou um serviço de pagamentos autônomos para agentes de IA](/artigo/aws-agentcore-payments-agentes-ia-pagamentos-autonomos). No mercado de nuvem, onde AWS, Azure e Google Cloud disputam lado a lado clientes de dados e IA — como já detalhamos [na comparação entre as três nuvens](/artigo/aws-vs-azure-vs-gcp-2026) —, trazer para dentro de casa o time por trás de uma das ferramentas analíticas mais citadas dos últimos dois anos é um reforço direto de portfólio.
O que muda — e o que não muda — para quem usa DuckDB hoje
O ponto mais repetido no comunicado da AWS é que o projeto open source DuckDB não está sendo comprado — só a empresa DuckLabs. O código continua sob licença MIT, e a governança segue com a DuckDB Foundation, uma organização sem fins lucrativos independente da AWS. Nada muda, por enquanto, em como o banco pode ser baixado, usado ou redistribuído.
Segundo reportagens que tiveram acesso ao comunicado dos próprios fundadores, Mühleisen e Raasveldt disseram que o crescimento do DuckDB começou a superar a capacidade de uma empresa pequena como a DuckLabs de sustentar o projeto — nas palavras atribuídas a eles, havia o risco de a DuckLabs virar um gargalo ("bottleneck") para o próprio DuckDB. Essas mesmas reportagens apontam ainda que a MotherDuck, empresa que vende um serviço de nuvem construído sobre o DuckDB, foi fundada em parceria com a equipe da DuckLabs e trabalha com ela há cerca de quatro anos — uma relação que a aquisição pela AWS não altera diretamente, mas que passa a ter um novo concorrente-parceiro no tabuleiro.
As dúvidas naturais de quem depende de projetos open source
É comum — e não é exclusividade do DuckDB — que comunidades de código aberto recebam com cautela a compra da empresa por trás de um projeto por uma big tech: o receio de sempre é que funcionalidades acabem represadas para planos pagos ou que o roadmap passe a servir primeiro aos interesses do comprador. A resposta que AWS e DuckLabs deram a esse tipo de preocupação, pelo menos no papel, foi manter a governança fora da AWS, na fundação independente, e prometer um conselho técnico consultivo para dar voz à comunidade nas decisões de rumo do projeto. Se essa estrutura vai segurar essa promessa na prática é algo que só o tempo mostra — e vale acompanhar, principalmente para quem depende do DuckDB em produção.
Cuidados de LGPD para quem usa ferramentas analíticas como o DuckDB
Bancos analíticos embutidos como o DuckDB costumam ser usados para juntar, cruzar e explorar bases de dados inteiras com poucos cliques — inclusive dados que podem incluir informações pessoais de clientes, usuários ou funcionários. Isso não é um problema do DuckDB especificamente, mas de qualquer ferramenta que facilite esse tipo de análise: quanto mais fácil é rodar uma consulta que cruza tabelas, maior o cuidado necessário com o que está sendo processado.
Antes de rodar analytics sobre bases com dados pessoais, vale revisar minimização de dados (só processar o que é realmente necessário), definir a base legal do tratamento, considerar anonimização ou pseudonimização quando possível, e documentar quem tem acesso aos resultados. Para um roteiro mais completo, veja o [checklist de LGPD para startups](/artigo/lgpd-checklist-startups-2026) — este texto é informativo e não substitui orientação jurídica.
Para quem nunca usou, a sintaxe do DuckDB costuma soar familiar a qualquer pessoa que já escreveu SQL — a diferença é rodar tudo localmente, sem subir servidor:
import duckdb
# consulta direta em um arquivo Parquet, sem etapa de importação
resultado = duckdb.sql("""
SELECT categoria, COUNT(*) AS total
FROM 'vendas.parquet'
WHERE data >= '2026-01-01'
GROUP BY categoria
ORDER BY total DESC
""").fetchall()
print(resultado)O que esperar daqui para frente
A conclusão do negócio depende das condições habituais de fechamento, mas AWS e DuckLabs falam em a equipe se juntar formalmente à Amazon no início de setembro. Para quem já usa DuckDB hoje — seja em notebooks, pipelines de dados ou embutido em produtos — nada muda de imediato: o binário continua o mesmo, a licença continua MIT, e o projeto segue sob a fundação independente. O que vale observar daqui para frente é como a integração com os serviços de dados da AWS evolui, e se o prometido conselho técnico consultivo realmente dá à comunidade um canal de influência sobre o roadmap do projeto.
Perguntas frequentes
Não. Segundo o anúncio da AWS, o projeto DuckDB continua sob licença MIT e sob a governança da DuckDB Foundation, uma organização independente. A AWS está comprando a empresa DuckLabs, não o projeto open source.

